Avanços em acordo da Argentina com FMI não conseguem dissipar incerteza sobre câmbio
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Por Jorge Otaola
BUENOS AIRES (Reuters) - A Argentina e o Fundo Monetário Internacional (FMI) podem estar na reta final de um novo programa de US$20 bilhões, mas até agora o acordo não conseguiu dissipar a ansiedade dos investidores e uma névoa de incerteza em torno das perspectivas para a moeda do país.
Sob o comando do presidente Javier Milei, a Argentina está tentando reconstruir a confiança dos investidores e reforçar as reservas de moeda estrangeira esgotadas depois de anos de gastos excessivos que deixaram o país fora dos mercados globais e lutando para estabilizar suas finanças.
O governo está em negociações avançadas com o FMI sobre um novo acordo que poderia fornecer ao banco central um amortecedor necessário, mas a incerteza sobre a política cambial tem assustado os investidores e levado a uma redução das reservas já esgotadas, ressaltando um desafio para as reformas de Milei.
As apostas do mercado de um enfraquecimento do peso desde meados de março causaram uma drenagem de reservas de US$1,6 bilhão, à medida que o banco central lutava para estabilizar a moeda local. Os futuros do peso subiram, enquanto as autoridades do governo refutaram os rumores de uma desvalorização.
Analistas e investidores disseram que o mercado está cauteloso, uma vez que há poucos detalhes concretos sobre o programa do FMI ou o que pode acontecer com a taxa de câmbio e os rígidos controles de capital que estão em vigor desde 2019.
'De modo geral, a tentativa de mitigar a incerteza ao revelar o valor do programa não conseguiu impactar significativamente os spreads de crédito, provavelmente devido à ausência de informações detalhadas', disse o JP Morgan em uma nota na semana passada.
Na segunda-feira, o índice de risco-país da Argentina saltou 62 pontos, para 863 pontos-base, próximo às máximas registradas em novembro, refletindo a diminuição da confiança dos investidores na dívida soberana do país. Ele havia caído para 550 pontos em janeiro.
Milei tem feito da reconstrução das reservas um dos principais focos desde que assumiu o cargo em dezembro de 2023 e deu início a um duro programa de déficit zero com cortes de gastos que ajudaram a estabilizar as finanças do Estado.
As reservas líquidas de moeda estrangeira melhoraram de US$11 bilhões negativos para US$4 bilhões negativos em março deste ano, mas desde então retrocederam.
O economista Camilo Tiscornia, da consultoria C&T, citou 'pura dúvida' sobre o que poderia acontecer com a política cambial e disse que o mercado precisa de mais detalhes sobre o acordo com o FMI.
'O acordo com o FMI ainda está no ar', disse ele. 'Há especulações de que o acordo trará alguma modificação ao sistema (de câmbio), mas ninguém sabe o quê.'
Essa dúvida tem pressionado a moeda local, desencadeando uma série de vendas de dólares pelo banco central desde meados de março, em uma tentativa de fortalecer o peso. As reservas brutas, incluindo ativos menos líquidos como o ouro, caíram de US$33 bilhões em janeiro para US$26 bilhões.
Analistas estão divididos sobre o que provavelmente acontecerá com relação à política cambial e quando, em um eventual acordo com o FMI.
O grupo BancTrust & Co prevê que o governo não permitirá uma revisão significativa da política cambial até depois das eleições de meio de mandato no final do ano.
O Citi disse em uma nota que os fundos do FMI aumentaram as chances de a Argentina remover os controles de capital antes das eleições de meio de mandato, mas acrescentou que não está claro se a moeda terá permissão para flutuar livremente ou se haverá uma nova indexação.
Escrito por Reuters