Crítica Antena 1: “Primavera”
Em uma mistura de estilos o filme conta a história de uma família
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“Primavera” traz uma história interessante através de uma linguagem inovadora depois de 20 anos de produção. Uma crônica sobre uma família incomum, mas cheia de banalidades, é contada com palavras escolhidas a dedo – o que lhe dá ares poético em certo ponto – e mostrada ao público como um documentário. Mas não repetindo a fórmula dos Mocumentaries dos sitcons do começo dos anos 2 mil.
Comparo a linguagem com um documentário pela mistura de imagens e clipes sobre postos pela fala do narrador no presente sobre o que ocorreu no passado. Há também o fato de as peonagens do passado muitas vezes parecerem depor ou darem uma entrevista ao público, mas também existem cenas de acontecimentos fatídicos para evitar a fadiga.
No filme, o narrador conta sua genealogia desde o primeiro membro da família até seu pai, cuja morte desencadeia a vontade de relembrar a história da família que está registrada em um livro escrito pelos primos – mas mal impresso. Há registro de tudo: casamentos, mortes, nascimentos, perdas e enriquecimentos. A obra se comporta como uma crônica particular que pertence à família.
Um filme quase livro
Vê-se muito de traços literários na forma que o filme conta a história a qual se propõe. O sarcasmo de Machado de Assis vem com as imagens que traz comparações instantâneas ao público entre as personagens e animais. A forma que escolhe um adjetivo para caracterizar cada pessoa – que há de, na verdade, internalizar uma geração – lembra muito a forma escolhida pelos grandes autores de fantasia, mas a forma escolhida aqui se aproxima muito da usada por Tolkien em “O Silmarillion”.
Dessa forma, temos o avô poeta, o parente apaixonado, a matriarca louca. Dando a cada personagem uma construção única que, de uma ótima forma pitoresca, e personalidades marcantes e especiais a todos.
A diferente visão da lembrança
Muitas vezes ao longo do filme vemos dois fenômenos sobre o envelhecimento: personagens não envelhecem e os empregados vivem durantes gerações. Cabe boa análise.
O fato de os empregados não envelhecerem pode se dar porque a família rica não nota a mudança de empregados ao longo do tempo. Já o fato dos próprios familiares não envelhecerem – alguns inclusive sempre são retratados velhos – vem da premissa que o narrador se baseia em suas lembranças e no livro escrito por seus primos.
Sendo assim, é de se deduzir que cada parente só recebeu uma descrição – ou enquanto jovem ou enquanto velho – e desta forma sua imagem não se transforma ao longo da narrativa. Vemos no filme uma espécie de metafísica da lembrança.
Vamos aos técnicos
A mistura da técnica documental com a narrativa romântica pede que o roteiro seja bom. É. A direção inova com ousadia e a fotografia traz força. Figurinos impecáveis. O roteiro, sim ele de novo, nada supera.
FICHA TÉCNICA
Diretor: Carlos Porto de Andrade Jr.
Roteiro: Carlos Porto de Andrade Jr.
Elenco: Ana Paula Arósio, Ruth de Souza, Marília Gabriela, Werner Schunneman e outros
Duração: 1h 52min
Gênero: Drama, Romance
Classificação Etária: 18 anos
Nota: 9
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